Entre os prédios
“Na capital paulista, eu estava ali, pedindo luz ao prédio mais alto, esperando ser atendido”
Todo mundo que me conhece já me disse que a. sou paulista, o que, para a surpresa de todos, não é verídico, ou b. pareço paulista. Considerando as rivalidades entre cariocas e paulistas, me deixa feliz que nenhuma dessas pessoas me disse isso em um tom pejorativo. Mesmo assim, esse tipo de comentário sempre me frustrou por um motivo muito simples: eu nunca pus os pés em São Paulo. Nunca me fez muito sentido já ter cruzado o oceano em voos de quase meio dia, mas não ter encarado 6 horas numa estrada para um estado vizinho. Mas, depois de algumas tentativas, a conexão Rio-SP foi traçada.
Viajei duas semanas antes do meu aniversário de 22 anos. Eu estava em um tumulto — escondendo o cabelo por dias, evitando o espelho, o sol entrando em câncer, tesão oscilando por semanas, meu aniversário cada vez mais próximo, o azulão no peito tomando mais forma. Ainda assim, tudo se alinhava para que eu tivesse esse escape, e tirasse dele o que eu precisava. Os dias em São Paulo foram gentis, nem quentes nem frios, regados a risadas e álcool, recusando cigarros mentolados, vendo os amigos que fiz na internet com os quais converso com frequência por anos finalmente se apresentarem fisicamente diante de mim, e me reconhecendo cada vez mais.
Joan Didion uma vez escreveu, enquanto refletia em sua ingenuidade quando chegou em Nova York, “Alguém já foi tão jovem algum dia? Estou aqui para lhe dizer que alguém foi, sim”. Não, nesses quatro dias não havia uma pessoa mais jovem que eu em São Paulo. As linhas do metrô estavam entrelaçadas nos meus dedos, eu tinha a cidade nas mãos, e sentia que tudo que estava à minha vista era meu para levar. Andando por dez minutos da estação da Barra Funda até uma boate, o medo se transformou em liberdade. Era como poder sentir as células dentro do meu corpo se realinhando, se separando e se reencontrando — em certo momento da viagem, jurei que podia ver isso acontecendo. Como se tudo estivesse começando do zero. Um renascimento.
Eu não estou aqui para discutir diferenças culturais entre uma cidade e outra, ou falar sobre as vezes que interpretei errado um termo que no Rio tem outro significado. Também não desejo rememorar o que o último ano foi para mim para justificar esse renascimento. Isso não é uma ode a uma cidade, é uma ode a um sentimento. Ir à São Paulo teve a sensação de volta para casa, o que soa desconexo, já que acabei de confessar nunca ter ido à cidade antes, mas encontrar o que tinha perdido de mim em meio ao desconhecido fez com que toda a viagem se tornasse simbólica desse novo capítulo. Me reconecto com toda a ingenuidade que perdi, mas recebo seu retorno de forma diferente.
Isso me bate debaixo de algumas árvores, na madrugada, todas acesas por luzes verde e rosa que piscam ansiosamente. É minha última noite em solo paulistano e estamos num clube, a música é alta, todos estão muito apertados porque o espaço nessa seção é limitado. É como se fosse um bosque, e a inserção de um palco de DJ com queens se apresentando ali no meio de todo o orgânico não ajuda no freio da alucinação. Com os olhos fechados, depois de jurar ver minhas células se movendo dentro do corpo, me peguei pensando quando fui a uma festa como essa pela primeira vez, aos 19. Parecia ser um prédio abandonado no Humaitá, que antes abrigava uma escola de dança mas foi largado às traças. Eu me lembro do anseio, da curiosidade, de sentir a lata de RedBull descer a garganta quase que inteira de uma vez. Foi com as luzes verdes piscando e meu corpo tremendo em sincronia com o techno acelerado produzido pelos DJs que, aos 19 anos, me senti vivo pela primeira vez. E me encontro aqui, em outra cidade, quase três anos depois, com o mesmo sentimento de começo.
Chegando na capital paulista, desembarcando na Rodoviária do Tietê, me peguei pensando em quantos sonhos de um novo começo carregavam as pessoas que chegavam ali junto de mim, vindos dos cantos mais diversos do país, e o que desejavam encontrar por essas ruas. Eu fui para a cidade com muitas perguntas. Parece estranho, talvez até um pouco desesperado, que eu tenha buscado tantas respostas em uma cidade tão próxima da minha, numa realidade tão similar. Mas eu estava desesperado. Estava quase completando 22 anos, e me vejo na encruzilhada de finalmente aceitar o inevitável: ser adulto. 21 foi como o precipício, 22 parece ser a queda livre.
“Eu achava que era um gênio, e agora tenho 22 anos” é um verso perdido no meio de uma das minhas canções favoritas da Lorde, que é mais como um fluxo de consciência que se tornou poema que se tornou música. O verso é seguido de “Está começando a parecer que tudo que sei fazer é vestir meu figurino e tirá-lo”, o que para ela faz muito sentido como cantora, mas não consigo evitar me sentir da mesma forma. Quem não se achava um gênio aos 18 anos? Eu achava. Imaginava que a história que estava escrevendo seria magicamente descoberta por um estúdio que quisesse transformá-la em um filme — o qual eu dirigiria — e seria um sucesso. Imaginava que eu seria reconhecido na faculdade e precocemente enviado para trabalhar na maior emissora do país. Imaginava que em dois anos teria um emprego e estaria me preparando para morar sozinho. E agora tenho 22 anos, nada disso me aconteceu, mas vivo no entendimento de que não é dessa forma que as coisas acontecem.
Tudo que eu sabia com toda certeza aos 18 anos eu perdi no meio do caminho, assim como perdi contato com todas essas pessoas que fui por todos esses anos. Quando eu tinha 18 eu me sentia perdido — o que é uma coisa que digo sobre cada idade que passa —e talvez (com toda certeza) eu estivesse, mas olhando para trás, eu vejo que aquele cara era um herói, com tudo que desejava ter em mim agora e mais. A ingenuidade, a curiosidade, a necessidade de agitação. Eu tinha 18 anos e queria ser visto como adulto. Usava apenas camisas polo, mudei a armação dos meus óculos, me afoguei em Joni Mitchell e Bobby Vinton, e tentei ler Dostoiévski. Eu queria ser levado a sério (“I was so young when I behaved 25”, Mitski disse). Quando fiz 20 desisti de tudo isso— fiquei loiro, comprei camisas largas com estampas esquisitas, todas as minhas calças e bermudas são três números maiores (no mínimo), leio Caio Fernando Abreu (e ainda amo Joni Mitchell). Eu quero ser jovem, e me sentir jovem, e eu sei que provavelmente vou ter pensamentos contrários no futuro. Acho que isso é crescer; odiar a si mesmo com crueldade no momento, mas no fundo saber que vai se lembrar na frente com muito carinho. Eu perdoo meu julgamento no espelho ciente de que quando tiver 25 serei mais gentil comigo mesmo, algo que desejava ser capaz agora. Isso não é algo que me importa quando consigo sentir toda minha juventude na ponta do dedo.
Se tornar um adulto não é uma cruzada simplesmente indicada por uma data ou idade, e sim um conjunto de percepções, assim como não nos sentimos mais velhos quando o relógio indica meia-noite no nosso aniversário — é só mais um dia. Quando se olha ao redor de seu mundo particular e o vê pelo que realmente é — a faculdade quase terminada, seu primeiro emprego, pagar uma conta você mesmo, seus pais envelhecendo — você entende que é o momento. Eu tive certeza disso no metrô, voltando do trabalho no meu aniversário, sendo essa a primeira vez que trabalhei nessa data, e esse meu primeiro ano trabalhando. Nós não ficamos mais jovens, e tudo que sabemos apenas será o que é nesse exato momento. Nada será como antes. Na capital paulista, eu estava ali, pedindo luz ao prédio mais alto, esperando ser atendido. Foi ali que tudo se iniciou; eu começo a ser adulto entre os prédios.
De todo modo, tudo que perguntei em desespero à cidade me foi respondido. Além de encontrar o que eu perdi em casa, eu desejava encontrar o que preciso em casa. Encontrei essas respostas nos cantos mais inusitados da cidade. Eu não fui em busca de um gosto da história ou o que tornou a cidade o que é — eu queria um gosto da vida. Eu queria ver como outras pessoas vivem em um lugar diferente do meu, observar suas dinâmicas, invejar suas vidas e ver o que é intercambiável com a minha. Eu deixo todos os museus que não consegui visitar e outros pontos para uma próxima visita; dessa vez, eu queria os corações batendo, o sangue que compõe a cidade. Eu deixei muita coisa em São Paulo, e trouxe muita coisa comigo.
O êxtase me deixa no assento do corredor do ônibus, algumas horas depois, a caminho de casa. Encarando todos os efeitos colaterais da overdose de felicidade dos dias que antecederam, abri espaço para o fluxo de consciência mais inóspito que gostaria de receber, que apenas foi recebido pela minha falta de consciência. Na estrada, sinto que fica tudo ali: os extensos históricos de conversa que deletei, o poder que cedo ao incontrolável, e tudo que não me permite ser o que preciso ser em sua mais alta capacidade. Assoprei as velas gêmeas ao som do coro de “parabéns” entoado por velhos, novos e futuros amigos exatamente a duas semanas do fim da viagem. O pedido feito no apagar da chama não pode ser revelado, claro, mas na conclusão desse escrito, deixo o tom que carregarei minha nova idade, e minha nova vida: é hora de pensar em mim como os arranha-céus dessa cidade de concreto que, por ora, deixei para trás. Afinal, a vida é maior que São Paulo.









