O ano da esponja
Meu propósito com retrospectivas sempre foi buscar uma resposta.
Eu rolava pelo Twitter quando vi o print de um story antigo da Lykke Li, onde ela escreve “percebendo mais e mais que realmente não há uma resposta, apenas uma pergunta”. Eu estava no banheiro do trabalho, não era nem meio-dia, segunda-feira e eu ainda sentia um pouco da ressaca de sexta-feira que emendei na bebedeira de sábado. Gostaria de dizer que não aconselho a maximização da ressaca, mas não sou uma pessoa que coleciona arrependimentos. Tudo é válido enquanto me acontece.
Eu sou escritor e amo escrever. É como um chamado, e algo que me foi informado pelo divino com pouca idade. Mesmo assim, ainda tenho dificuldade de reconhecer quando é hora de escrever ou não, o que me causa muitas frustrações. Uma das minhas maiores dificuldades é fazer retrospectivas, olhar para trás com o propósito de apanhar os acontecimentos do ano, colocá-los juntos com um laço exagerado e pensar em uma “moral da história”. Ainda assim, me forço a fazê-las, sempre, e me frustro com a mesma frequência. Mas Lykke Li me fez pensar (é claro).
Meu propósito com retrospectivas sempre foi buscar uma resposta. Sempre chego ao final dos meus anos carregado de perguntas, todas querendo entender o que fez esse ano valer a pena. “Olhar para trás pode ser a única forma de seguir em frente”, e eu acredito nisso. Vejo os aniversários, as saídas com amigos, os quartos de ficantes, textos que nunca dividi, tudo espalhado pela galeria de fotos sufocada do meu celular. E o que todos esses registros me reforçam é que esse ano eu não me poupei de nada.
O ano passado foi um ano de limitações, algumas delas apenas reconhecidas em retrospecto (tá aí a importância de #retrospectivas, mais uma vez). Acredito que tenha sido uma decisão do meu subconsciente que, neste ano, eu enfrentasse tudo de peito aberto, absorvendo tudo o que me acontecesse da forma que acontecesse. 2025 foi o ano da esponja. Isso me custou muita coisa, principalmente dinheiro, claro. Me custou resquícios da minha inocência. Me custou as mentiras atravessadas para meus pais. Me custou um pouco de juízo. Mas tudo que a gente perde nos encontra de novo na frente, de novas formas, sempre engrandecedoras. E nesse reencontro eu conheci minha independência, novos caminhos e rotas de escape, e meu desejo de existência.
Me lembro de ter visto no ano passado uma frase na legenda de uma postagem de Valter Hugo Mãe, e por mais estranho que tenha sido o fato de o autor ter me tocado tanto pela legenda de uma foto no Instagram e não por uma obra sua (talvez isso seja um retrato do nosso tempo), ela ficou comigo por todo esse tempo. Minha intenção era rememorar apenas a tal frase, mas na releitura do texto completo, acabei chorando, e entendi que era pertinente que ele fosse lido e relido mais vezes:
“todos os anos acabam sem saberem disso. o tempo não se conta a si mesmo. estende-se com a mesma naturalidade com que abre ou fecha a luz pelo andar do dia. medimos o tempo para nos medirmos a nós e sabermos como nos precipitamos para o fim.
este ano nunca me será indiferente. por tanta coisa má entre o amor e o carinho que, afinal, imperam e justificam quanto há.
quero, portanto, acreditar que 2025 não pode ser pior. não pode. por isso, acima de tudo existo ainda com esperança. deste mesmo modo vos desejo um muito feliz ano novo.”
Eu não faço ideia de como foi o dia a dia de Valter Hugo, assim como ele não deve fazer ideia do quanto eu agonizei por conta de um lovebombing, mas ainda assim, sentimos as mesmas palavras em lugares parecidos.
Desse ano me lembro de sentir amor no pacote completo — de me apaixonar a ver isso encerrar, e então continuar a caminhar. E então vi o sentimento reaparecer em meio a tanta descrença de que fosse chegar perto de sentir algo dessa forma novamente. Não posso dizer que senti, mas o gelo no peito na dúvida se mandei uma mensagem da forma certa, ou não saber se estou fazendo sexting demais para ser levado a sério, ou pegar o metrô às nove da noite num domingo para me esclarecer, ou até mesmo o café da manhã que me foi pago me fizeram perceber que sim, o amor está aí, à espreita, e pode me pegar a qualquer momento.
Passei o ano inteiro em um emprego pela primeira vez, visitei uma cidade que me pegou nas mãos e me reformou por inteiro, terminei a faculdade, conheci dois melhores amigos — um parece meu irmão gêmeo, e outro é certamente um dos encontros mais bonitos que já me aconteceram —, me passei em noites que pareciam ter a duração de um mês, reforcei meus laços e me libertei do que não me servia mais, e, mais importante, encarei o êxtase e tudo que ele traz junto de cabeça erguida.
Esse ano foi tão grandioso que, naturalmente, em meio às #Retrospectivas, pensei em desacelerar no próximo — reduzir as saídas, juntar um pouco mais de dinheiro, menos ficadas e mais casos — mas logo me policiei. Cheguei até a rir de mim mesmo. A graça de chegar no fim da montanha-russa é querer ir de novo. Imediatamente me organizei em planos e metas, grandes mesmo, maiores que tudo que conheço, tão altos que nem sei como vou alcançar, mas a graça é essa. Eu quero que tudo me aconteça, desejo encarar o super ultra mega e tudo de mais extraordinário. Eu quero pegar sol sem ligar para as queimaduras. Eu quero ser melhor e maior e vou ser. “Eu vou atrás de levantar minha bandeira”. Esse ano que me chega é meu e por direito.
Nenhum ano que me chega ou se despede passa por mim livre de peso, sem que eu reconheça toda a transformação que aconteceu nesses 365 dias entre a chuva de fogos de artifício. E cada ano que fico mais velho e conheço mais do que é existir e ser vivo, tenho prezado mais pela tentativa de recapitular. As retrospectivas são como ler uma lista de ingredientes. São como se abrir no meio e descobrir do que é feito. São um relatório de tudo que você sobreviveu entre a contagem para o último 1º de janeiro e o próximo.
Para esse novo ano, desejo que eu siga na busca desse tal extraordinário, sempre com os pés no chão mas com essa vontade sem tamanho de voar. E desejo isso para você também.







okay fire
muito bom, João!